Holdings: regime fiscal português é dos piores da Europa
Especialistas dizem que deslocalização acaba por ser um acto de boa gestão
- PorRedacção PGM
- 2012-01-26 15:43
O regime português de tributação de holdings é dos piores, se não o pior, do espaço comunitário e o actual
cenário de deslocalização de sedes sociais para o estrangeiro acaba por ser um acto de boa gestão, defendem os especialistas
citados pela Lusa.
Falando à margem do seminário «Planeamento fiscal em debate ¿ Atractividade da Holanda», que decorreu
no Porto, Maria Antónia Torres, da PricewaterhouseCoopers (PwC), e Filipe Romão, da sociedade de advogados Uría Menéndez-Proença
de Carvalho, afirmaram que só uma mudança de mentalidade política em Portugal inverterá a actual situação.
Segundo
a responsável da PwC, casos como o da Jerónimo Martins - que recentemente anunciou que a Sociedade Francisco Manuel dos Santos
vendeu a totalidade do capital que detinha no grupo à sua subsidiária na Holanda ¿ reflecte «a história da legislação fiscal
portuguesa nos últimos anos ao nível das SGPS», cujo regime «tem evoluído no sentido do quase desaparecimento das isenções
e benefícios normais dentro da Europa».
«Isso tem levado muitas vezes, até por uma questão de boa gestão, a decisões
de deslocalização ou de criação de raiz de sociedades holding noutros países da UE. Não captamos investimento e fazemos
com que haja necessidade de criar estruturas fora», explicou Maria Antónia Torres.
Considerando que Portugal terá
«um dos piores, se não o pior regime europeu de holdings», a responsável desmistificou a ideia de que um regime mais
favorável reduziria a receita fiscal e sustentou tratar-se de uma «questão de mentalidade política».
Holanda isenta
mais-valias e dividendos
Como exemplos das actuais vantagens em sediar uma SGPS na Holanda, a PwC aponta a isenção
para dividendos e mais-valias oriundos de participadas quer sejam de dentro ou de fora da UE (em Portugal só estão isentos
os fluxos que vêm da União) e a estabilidade legislativa.
«Nos últimos dois ou três anos as nossas SGPS sofreram
um significativo conjunto de alterações do regime, deu-se completamente a volta ao que era, e para pior, e as empresas não
sabem o que vai acontecer a seguir. Já a Holanda oferece um regime fiscal extremamente estável e, ainda por cima, suportado
por uma administração fiscal muito negociadora», disse.
Para Maria Antónia Torres, a única solução que Portugal tem
«se quer manter cá os investidores e captar investimento estrangeiro» é «tornar o regime [de SGPS] mais atractivo»: «A legislação
fiscal portuguesa é que se tem que adaptar a estes tempos, mas há aqui um constrangimento de mentalidade», sustentou.
Fisco
deve preocupar-se é com a criação de riqueza
Já Filipe Romão, sociedade de advogados Uría Menéndez-Proença de
Carvalho, defende que operações como a da Jerónimo Martins «podem ser feitas por uma questão de optimização fiscal, mas isso
não deve ser visto como necessariamente negativo, desde que tenha a devida substância económica e razões que o justifiquem».
«Se
um grupo tem uma actividade multinacional não tem necessariamente que estar sedeado em Portugal, desde que colocar a sede
noutro sítio seja acompanhado da devida substância económica, como melhor acesso a investidores e a mercados de financiamento
internacionais», considerou.
Para Filipe Romão, «a preocupação da administração fiscal deve ser a criação de riqueza»,
algo que «o grupo Jerónimo Martins já faz cá em Portugal, com a actividade operacional que paga impostos, e ainda fará mais
se, mantendo a sede de operações na Holanda, isso fizer com que entrem novos investidores e aumentem o negócio».
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