New York Times: «Portugal não precisava de ajuda»
Artigo de Robert M. Fishman lembra que há quem esteja pior que nós e que os mercados estão a pôr em causa a liberdade política
- PorRedacção CLC
- 2011-04-13 17:03
Afinal, ao que parece Portugal não precisava assim tanto de ajuda. Pelo menos, no «mar da inevitabilidade» da ajuda externa,
defendido por um sem número de especialistas, surge uma «ilha» vinda dos EUA. O artigo do New York Times recupera a tese de
que Portugal foi vítima dos mercados, lembra que há quem esteja bem pior que nós e ainda tem o «desplante» de afirmar que
nos anos 90, Portugal teve uma «performance económica forte».
Robert M. Fishman, professor de sociologia na Universidade
de Notre Dame, nos EUA, escreveu aquilo que Mário Soares já tinha dito. A pressão dos mercados deve ser um aviso às democracias.
O professor afirma que a crise que começou com os pedidos de ajudada da Grécia e da Irlanda e seguiu um «caminho feio».
O
pedido de ajuda de Portugal nada tem a ver com o seu défice. «Portugal teve uma performance económica forte nos anos 90 e
estava a gerir a recuperação da recessão global melhor do que muitos países da Europa», escreveu.
Como foi dito
há alguns meses, e silenciado cada vez mais com o aperto crescente dos mercados, Portugal ficou «sob pressão injusta e arbitrária
de negociantes de obrigações, especuladores e analistas de crédito que, por miopia ou razões ideológicas, já conseguiram expulsar
um governo democraticamente eleito e, potencialmente, amarrar as mãos do próximo».
Mercados que são um perigo, uma
vez que deixados sem regulamentação estas «forças» ameaçam eclipsar a capacidade democrática dos governos (quem sabe mesmo
dos EUA) de tomar as suas próprias decisões sobre os impostos.
Para Fishman, a crise em Portugal é completamente
diferente da instalada na Grécia e na Irlanda. «Não há uma crise subjacente», defende, salientando que as instituições económicas
e políticas não falharam e conseguiram importantes vitórias, antes de sermos submetidos às ondas de ataques dos especuladores.
O resgate que aí vem não irá resgatar Portugal, mas sim empurrá-lo para uma política de austeridade impopular que
atinge quem mais precisa. São as bolsas estudantis, as reformas, o combate à pobreza e os salários de funcionários públicos
que vão sentir na pele o «resgate».
Para o professor, não é Portugal que está a fazer a crise, até porque a dívida
portuguesa está bem abaixo de países como a Itália e o défice tem diminuído «rapidamente» com os esforços do Governo. Fishman
aponta ainda que no primeiro trimestre de 2010, Portugal teve uma das melhores taxas de recuperação económica, acompanhando
ou mesmo ultrapassando os vizinhos do Sul e até mesmo a Europa Ocidental.
Aliás, se há alguém que não deve ser culpado
do estado do país é o primeiro-ministro e os políticos portugueses. A recente crise política nada tem a ver com incompetência
portuguesa, mas decorre da normal actividade política democrática, já que a oposição considerou que podia fazer melhor levando
o país a eleições.
As razões do ataque a Portugal são então duas. Por um lado, um cepticismo no modelo de economia
mista de Portugal. «Os fundamentalistas do mercado detestam as intervenções keynesianas, nas áreas da política de habitação
em Portugal - o que evitou uma bolha imobiliária e preservou a disponibilidade de baixo custo de rendas urbanas - a assistência
de renda para os pobres. Por outro lado, a falta de perspectiva histórica é outra explicação. O crescimento do país nos anos
90 levou a uma melhoria nos padrões de vida e a uma taxa de desemprego das mais baixas da Europa.
Para Fishman,
os ataques dos mercados condicionam não só a recuperação económica de Portugal, mas também a sua liberdade política. Se o
25 de Abril foi um ponto de partida para uma «onda democratização que varreu o mundo», para o autor, a entrada do FMI em Portugal,
em 2011, pode ser o início de uma onda de invasão da democracia, sendo que as próximas vítimas poderão ser a Espanha, a Itália,
ou a Bélgica.
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