Carvalho da Silva: «Estamos longe de vencer os perigos»
Perigos criados pela crise europeia e pela condução das políticas nacional. Há «duas ideias mentirosas» que foram passadas aos portugueses
- PorRedacção VC
- 2012-01-27 12:50
No seu último discurso como secretário-geral da CGTP, Carvalho da Silva deixou um alerta: «Estamos longe
de vencer os perigos» que a crise europeia criou.
«É verdade que os sindicatos atravessam um período complexo e de
dificuldades, mas são indispensáveis para afirmar direitos e ideais dos trabalhadores, lutar pelas reformas e rupturas necessárias
para a transformação social, colocar economia ao serviço dos trabalhadores e do povo, dizer não às precariedades e inseguranças
que destroem o emprego e desestruturam as nossas vidas».
Com a «brutalidade do ataque ao Estado social» que o país
enfrenta, «é preciso deixarmos alertas fortes» e lembrar que
«há uma relação profunda entre o sindicalismo e a democracia».
Os
sindicatos, sublinhou Carvalho da Silva, «não são uma condescendência dos democratas de pacotilha na sua interpretação
da democracia. São obreiros, construtores da democracia e são um dos pilares mais seguros na defesa dessa democracia».
Uma democracia em crise, com maus ventos europeus: «Só a injecção do Estado, com dinheiro que é do povo, no sector
financeiro evitou que em 2008/2009 vários países entrassem em colapso. Nessa altura, muitos governantes, incluindo José Sócrates,
juraram ao povo que tudo ia ser pago até ao ultimo tostão e que as burlas do passado não se repetiriram. Na primeira oportunidade,
passaram isso para o Orçamento do Estado. Passaram os sacrifícios ao povo», enquanto a «especulação financeira» continuava
e se faziam «autênticos roubos organizados».
Neste contexto, a União Europeia «revelou falta de cooperação e
até comportamentos xenófobos», tomando decisões, como o novo tratado europeu, «à margem dos povos europeus». Mas «se
a crise é sistémica, a resposta tem de ser de todos. É preciso agirmos».
A par da situação europeia, «nos últimos
quatro anos, a economia portuguesa entrou numa crise profunda. As medidas feitas em nome do combate à crise situaram-se no
apoio ao sector financeiro e em apoios para cobrir buracos e roubos privados como é caso do BPN e outros», traduziram-se no
favorecimento dos «accionistas e grandes grupos económicos».
«Assistimos entretanto aos accionistas e gestores a
continuarem a usufruir de remunerações absolutamente inaceitáveis e ainda por cima muitos usam paraísos fiscais».
Foram
anos de uma política,« com poucas excepções, anti-laboral, criando cortinas de fumo. Desde logo, passaram-se «duas ideias
mentirosas» aos portugueses. «A primeira é de que a dívida é do Estado, pretensamente para pagar subsídios de reforma
e desemprego, escondendo a dimensão de dívida privada. A segunda é que os portugueses vivem acima das suas possibilidades,
escondendo quem viveu do saque ao povo».
E, depois, «de forma politicamente criminosa tentam que os jovens aceitem
viver pior do que os seus pais e avós e incentivam-nos à emigração».
Para Carvalho da Silva, é «chocante» ouvir
governantes a situarem o conteúdo do memorando como «interesse do Estado». Por isso, questiona: «Onde ficam os interesses
do povo?».
Estão a «subverter-se compromissos fundamentais que tinham sido feitos com os portugueses, insistindo
nessa austeridade que coloca em causa o Estado de Direito». O memorando da troika, para além de «socialmente injusto» é «economicamente
contraproducente».
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