Crise e salários chorudos: onde pára o bom senso?
Estamos em tempo de crise, mas há empresas que pagam ordenados milionários aos seus gestores. E até as que dão prejuízo atribuem prémios
- PorRedacção Vanessa Cruz
- 2011-02-18 17:31
Os salários milionários e prémios chorudos dos administradores das empresas públicas nacionais têm sido alvo de controvérsia
nos últimos tempos. Quais são as obrigações morais de um gestor em tempo de crise? E deverão as empresas que dão prejuízo
continuar a premiar quem as gere?
«É puro bom senso», diz o autor do livro «Responsabilidade Civil dos Administradores
- Os Deveres Gerais e a Corporate Governance» que é apresentado esta sexta-feira, em Lisboa. Em entrevista à Agência Financeira,
Filipe Barreiros explicou que «em termos morais, se uma empresa está a dar continuo prejuízo e se ainda vou receber um bónus
por bom desempenho, alguma coisa está errada. Não vou estar a premiar quem me deu prejuízo». A Estradas de Portugal,
a TAP e a Águas de Portugal são exemplos de companhias que registam perdas e pagam na mesma ordenados e prémios bem acima
da média.
O caminho deve ser sim a «meritocracia», ou seja, «um gestor deve ser premiado pelos seus bons desempenhos
e quem diz um administrador, diz um trabalhador, desde o senhor da limpeza até ao gestor. Se tem um bom desempenho por mérito
deve ser recompensado. E não ao contrário. É como irmos ao restaurante e darmos ou não gorjeta ao empregado que nos atende.
Se sou mal atendido, não dou».
O exemplo vem de cima
Já quando uma empresa tem um bom desempenho
como é o caso da EDP, poderá haver justificação para o vencimento milionário do presidente executivo António Mexia, um dos
gestores mais bem pagos da Europa?
«As políticas remuneratórias de uma empresa privada apresentam uma liberdade total
de movimentos. Enquanto cidadão, obviamente que me pode escandalizar, face à conjuntura económica que o país atravessa, que
existam gestores com ordenados multimilionários ou que existem pensões douradas assustadoras para o comum dos mortais. Mas
analisando em que moldes o gestor foi contratado, os investimentos que fez e se poderão trazer benefícios a médio e longo
prazo para a empresa» a perspectiva é outra.
«A transparência - incluindo no que toca às remunerações dos administradores
- é muito importante para que eu, accionista, quando vou investir estar perfeitamente esclarecido de como é toda aquela organização.
É sempre uma faca de dois gumes: essa transparência, essa informação divulgada quase à semelhança do que aconteceu com o WikiLeaks
poderá gerar convulsões dentro da própria empresa, entre os trabalhadores? Depende sempre da forma como a informação é transmitida».
E, no caso do presidente da EDP, «será reconhecido por todos os grandes investimentos que a empresa terá feito em múltiplas
áreas e investimento estrangeiro».
Certo é que as empresas públicas têm maiores responsabilidades, deverão
dar elas próprias o exemplo aos privados, porque «estão a gerir dinheiro de todos nós, de todos os contribuintes».
«Se os deveres deveriam ser mais explicitados? Penso que sim. Deveria haver uma maior responsabilidade e responsabilização
de quem está à frente? Penso notoriamente que sim. Se isso na prática acontece, esperemos que sim».
Fazendo notar
que «há excelentes profissionais que estão em empresas privadas, mas também em públicas», Filipe Barreiros frisou ainda que
«não devemos julgar os administradores como se fossem sempre os mauzões. Tem de se partir sempre do princípio de que muitas
vezes é em épocas de crise que surgem oportunidades. É preciso arriscar. O projecto pode vir a verificar-se um falhanço total,
mas também uma janela de oportunidade. E aí o gestor também tem de ter necessariamente, até para bem da economia, o seu poder
e a sua liberdade de movimentos».
Veja também o que diz Filipe Barreiros sobre quem
deve dar a cara nas falências e como seria se o Estado estivesse
nas mãos de um gestor.
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