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«Senhor Sócrates: mentiu-me ou estava a delirar?»

Jornalista da Aljazeera questiona primeiro-ministro, a propósito de uma entrevista em que o chefe do Governo garantia, em Janeiro, que não seria preciso pedido ajuda externa

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«Sinto-me enganado. E muito. E logo por um líder de uma nação da Europa Ocidental». As palavras são de Kamahl Santamaria, escritas no seu blog sobre economia no site da Aljazeera, no passado dia 7, 24 horas depois de o ministro das Finanças ter admitido o pedido de ajuda externa.

Santamaria explica porque se sentiu traído por José Sócrates: em Janeiro deste ano, o primeiro-ministro esteve num programa do jornalista, no qual falaram sobre a crise da dívida soberana e os problemas que o país enfrenta. O jornalista até disponibiliza 15 minutos da entrevista, que está publicada online, e lança um apelo ao leitor: «Vejam, se tiverem 15 minutos para dispensar, e digam-me se o senhor Sócrates estava a ser genuíno quando me disse "nós não precisamos de nenhuma ajuda, apenas de confiança" e quando me assegurou que o resgate financeiro não seria necessário».

O jornal «Sol» recupera o texto de Santamaria, que ainda está disponível online, e onde se pode ler que o primeiro-ministro português acabou por demitir-se do cargo e que acabou por bater à porta da Comissão Europeia e do FMI para «o resgate que garantiu que nunca precisaria».

«Agora estou a tentar perceber, senhor Sócrates (se estiver a ler isto), mentiu-me ou pura e simplesmente não sabia a verdadeira situação em que estava o país?».

«Enganou-me ou estava a delirar? Ou estava apenas a mostrar um ar corajoso para as câmaras de televisão? Repare: eu sinto-me confuso e claro enganado!»

O jornalista discorre depois, no seu blog, que está associado ao site da Aljazeera, sobre a situação económica da Europa, e sobre se a honestidade do primeiro-ministro não teria sido a melhor opção.

«Se calhar não era preciso admitir durante a entrevista, em Janeiro, que Portugal precisava definitivamente do resgate. Mas provavelmente, poderia ter admitido que os mercados eram um problema e até ter concedido que iria recorrer à Comissão Europeia e ao FMI se a situação assim o pedisse e se fosse melhor para o país».

Aliás, reflecte o jornalista de economia: «Não teriam os investidores e os mercados gostado mais de uma declaração destas?»

Kamahl Santamaria não deixa nada de fora e admite que uma entrevista destas teria imediatamente «má imprensa» e repercussões nos media internacionais, mas «no longo prazo» o jornalista considera que esta teria sido a melhor opção para o país e para os portugueses.

«É o eterno enredo entre os negócios e a economia: não digam nada, e arrisquem o poder destrutivo do rumor. Digam tudo, e arrisquem que as pessoas não gostem da verdade».

Mas se existe, nem que seja apenas uma pequena possibilidade, a «feia verdade» emergir mais tarde, «não é melhor lançar alguns sinais antes do tempo, para que depois não seja um choque tão grande?»

Mas enquanto «estou bastante confiante» que o primeiro-ministro fez o que achou melhor para Portugal na altura, e que recorrer ao FMI também considera que é a melhor opção, pergunto-me se Sócrates visse agora esta entrevista, continuaria a achar que disse a verdade em Janeiro?»

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